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Amadora, metida a poeta. Não me levem muito a sério...rss!

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CANTO DO DESILUDIDO II

O mundo
Surdo se ajoelha
Aos gestos enganadores do maligno
E morre feito ovelha!
Sandra May


Imagem: Pixabay



DELIRIO


Andava assim tão distraída
Caminhando sobre a lua
E refletido em poças  sujas
O luar ela via
No chão enlameado da rua...
Sandra May











NÓS



[Dia 13]

E o abraço
De tão apertado laço
Fez-se nó
E desfez se em nós...
Sandra May

                                    Inspirado na musica "Disclosure" de Latch feat. Sam Smith



Nó de corda
Imagem: pt.torange.biz


ABRIL


O verão já é passado
Abril transcorre em paz
Coração pulsa suave, ritmado...
No compasso de cores mornas.

_Anestésico?
_Tanto faz.
Sandra May

Inspirado na musica "Give me Novacaine" - Green Days

Fundo de folhas de outono, Poema abril





The best poem
A confraria que não existe mais...

RESSURREIÇÃO


O que dizer do amor que morreu?
- Ressuscitou, ele vive!
Sim, porque o amor também morre
Ressuscitando em novos nomes.
Sandra May



Imagem da internet

AMOR É UM FOGO QUE ARDE SEM SE VER


Amor é um fogo que arde sem se ver; 
É ferida que dói, e não se sente; 
É um contentamento descontente; 
É dor que desatina sem doer. 

É um não querer mais que bem querer; 
É um andar solitário entre a gente; 
É nunca contentar-se e contente; 
É um cuidar que ganha em se perder; 

É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata, lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos" 



Matteo Arfanotti

Leilão de jardim (Cecília Meireles)


Primavera

Quem me compra um jardim
com flores?
borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio
de sol?
Um lagarto entre o muro
e a hera,
uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua
canção?
E o grilinho dentro
do chão?

(Este é meu leilão!).
Cecilia Meireles






RECEITA DE MULHER




vinicius-de-moraes


As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Vinicius de Moraes
Rio de Janeiro, 1959

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SONETO DA FIDELIDADE




















A UM PASSARINHO

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis
Deixe-te de histórias
Some-te daqui.
Vinicius de Moraes







Marcados pra não viver



Você tem que ter um carro
Um carro, caaarro!
Não um carrinho qualquer
Você precisa possuir motocicleta
Do contrário não pega mulher.

Você tem que ter um terno
Um não, váaaarios ternos!
Não um terninho qualquer
No mínimo um "Ermenegildo Zegna"
Caso contrário ninguém te quer.

Roupa, só de marca famosa
Na camisa tem que ter jacaré
Os óculos são de marca
Os tênis de marca
As meias de marca
De qual marca?
Daquela que a mídia quiser.

Lamento te informar...
Você já nasceu com a marca
Dos marcados pra morrer
De tédio
Por álcool
Por depressão
Infartado o coração
Prematuramente calvo
Careca por falta de opção
Depilado
Sarado
Malhado
Bombado
Máquina por definição.
Sandra May





PIANO


...E se nos tocam
Negras e brancas
Todas sem cor
Em uníssono somos
Teclas de piano.
Toca-me, por amor!
  Sandra May

SONETO DO EPITÁFIO (Bocage)


La quando em mim perder a humanidade
Mais um daquelles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o theologo, o peralta,
Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:

Não quero funeral communidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gattarrões, gente de malta,
Eu tambem vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada edosa
Sepulchro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitaphio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".
Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)

Fonte: www.elsonfroes.com.br/bocage







Imagem da internet

ESTUPIDEZ

Hoje amanheci abalada
Más notícias de jornal:
"Homem tem morte banal,
errou o caminho na estrada...!"
Sandra May


Foto autoral editada

Fonte:http://www.tribunadepetropolis.net/

Petropolitano é assassinado ao entrar por engano em favela

CORRENTEZA


Deixa fluir...
O rio corre livre
Transpõe barreiras
Se lança em precipícios

Deixa estar...
Em sua natureza
O rio já nasce mar
Ainda que duvidem os néscios!
Sandra May

Rio


PÉ


Vê bem onde pisas
Se estás apressado
Te acalma
Vai no ritmo
Das suaves brisas
Que até as mais grossas 
Das areias alisa
Vai suave, mas vai
Vai na ponta dos pés 
Sandra May / 2015


foto autoral



DEVANEIO

Esperei você por um longo tempo
Enquanto isso fui arrumando a casa
Sempre soube que viria
Estive te esperando sem pressa

A chuva molha o jardim!


A chuva molha a mim também
E não espero nada além
De que você apareça ainda que em sonho
E silenciosamente seque os meus cabelos
Bem devagar e sem pressa... vem?
Sandra May/ 2014





















ONDAS DE AMOR

O amor como uma onda
Invade, arrasta, cresce
Vai ao limite, ao seu limite
E desce

O amor como uma onda
Prossegue, se arrasta e se esgueira
Trespassa
 Quebra e rebate

Deslizando na branca espuma
O amor avança
 O amor avança
Avança

Num instante mágico
Composto por mil arcos-íris
O amor...
 Explode!

Mais tarde na areia branca
Nos braços da areia sereia
Água e pedra se confundem
E o amor adormece
Sandra May

Sereia

Imagem da internet

Eu sou o sol e você é o meu luar!


De que forma
Entre  tantas luzes que ofuscam teu brilhar
Encontrar as luminosas centelhas
Fulgurantes desses olhos
Que prometem tanto tanto
A ponto de me envergonhar?

As luzes da cidade são enganadoras
As luzes da cidade são traiçoeiras
Sendo noite é quase dia
E os dia trevas são.

Entre qual das tantas luzes
Meu luar, você está?

A ti envio incandescente fogo
E ousadamente confesso:
"Impossível não te acertar
Sou eu uma  estrela
Você, o meu  luar!"
Sandra May




ABSTRAÇÕES, REALIDADE OU FANTASIA ?

Reaprendendo a andar, falar e ouvir
Encaixando emoções
Pingo de tinta em prato branco com água
Visões, surpresas, transformações
Ora...assim o vento me leva!
Sandra May

Ilustração, abstrato


MÃE


De tantos dias esperando
Incansavelmente não perdeu a fé
De chegar não se sabe onde
De encontrar-se com quem não se sabe quem
Assim os dias foram passando...
Moídos com mãos pacientes
Desfiados um a um.

E tantos tempos foram passados
Que sua pele enrugou-se em vincos
Como sulcos de terra seca
Como verniz velho, craquelado
Como das árvores muito velhas
As velhíssimas árvores avós.

E os sonhos?
Ah, os sonhos!
Aqueles, se mantiveram intactos e preservados
Havia bebido da fonte da juventude
Porque ela conhecia o segredo.

Das lembranças ?
Guardava as bandeiras brancas 
Tremulantes em varais ao vento
Roupas enxaguadas em água de anil
Coisas do passado.

E dos dias de luta, restou a paz
Da certeza do papel cumprido
Dos travesseiros livre dos espinhos
E dos lençóis de algodão.

Assim dormiu
Deixando meu coração tão vulnerável e oco
Assim dormiu
Em começo de noite
Deixando minha vida em parcial eclipse
Congelado momento
Assim dormiu minha mãe,
Assim dormiu a minha Mãe.

Sandra May