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PONTO DE CRUZ




A rua não era calçada e nem era necessário que fosse, não  passavam carros com frequência, e, nem havia linha de ônibus no bairro. Carros mesmo, somente no final do ano quando chegavam "os  veranistas," e, mesmo assim eram raros.
Seu Joaquim, uma vez a cada quinze dias subia a rua de barro montado no seu cavalinho malhado, que tinha por nome, "trovoada."  Vinha fazer serviços para a avó de Letícia, e, chegava à casa pela rampa por onde em tempos próximos passados desciam as charretes do avô da menina, já então falecido.
No mais, era  quase sempre silêncio na rua mal iluminada à noite, e, vez em quando o apito do guarda noturno soava...
Às 7:00 horas a fábrica apitava, às 14:00 também, tornava a apitar às 18:00,  e, finalmente às 22:00 horas.
Letícia sentia medo sempre, muito medo, mas não sabia exatamente de que ou de quem. Mal dormia, mal acordava, mal comia! Sentia-se em um outro universo e vivia à deriva.
Marmita ela nunca tinha visto... e quando Seu Joaquim entregava aquele embrulho feito com pano de prato xadrez pra "vó,"  Letícia acompanhava com muita  curiosidade o processo de desembrulhar, esquentar a marmita e, finalmente, Seu Joaquim sentar no chão pra comer; não sem antes tirar o chapéu.
A avó quando via a menina parada dizia: " O que que tá espiando?" Era isso! Letícia não olhava pra nada, mas espiava tudo...queria saber de tudo, de todas as coisas. Procurava algum sentido pra vida!
Letícia tinha sempre os joelhos ralados de tanto que caía, mas sempre se levantava. Já tinha visto seus coelhinhos brancos, de olhos vermelhos, crescerem para depois serem erguidos pelas orelhas e abatidos por duas ou três pauladas, tinha visto também a última vaca  ir embora...não sabia pra onde mas teve um pressentimento que boa coisa não podia ser... Moeda, a última vaca! Ralou de novo os joelhos e muitas outras vezes, sucessivamente.
Os dias se arrastavam entre dias frios e chuva fina, era inverno. Dias quentes e chuvas grossas, trovejava, era verão!
Uma jabuticabeira carregadinha de frutas cor de berinjela ...a menina subia na árvore e passava horas comendo jabuticabas e falando com os passarinhos que com ela compartilhavam do banquete dos deuses. Estavam  acima de tudo, acima de qualquer maldade!
Verão, raios no céu, sol brilhando, dias amenos, noites sem cobertores, limonada, chuvarada e "os veranistas" subindo...
Quem pode faz o preço, quem precisa concorda!
Letícia chorou por muito tempo, teve crises nervosas e sentiu raiva das pessoas, odiou a vida, não perdoou nada e ninguém, nem a si mesma pela sua impotência diante do inevitável. Quase perdeu a fé em Deus, o que mais tarde acabou por acontecer.
Precisava tomar uma decisão, e, tomou a única possível: entrou na cratera oca e se deixou ficar por tanto tempo que criou raízes, e cresceu frondosa, e acolheu os passarinhos que nela fizeram seus ninhos. Tanta convivência assim com a natureza, acabou que fez as pazes com Deus
Muito tempo se passou, mas sabe-se que Dona Letícia ainda abriga  ninhos e continua falando com os passarinhos e eles cantam pra ela e ela sorri pra eles.
Dizem, e, concordo com o que dizem, e, da maneira como dizem, que: "Dona Letícia tem problemas de cabeça rs rs"!
Sandra May












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