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Contos




[8 de abril de 2016]

DOCES BÁRBAROS

Eram tempos doces!

Nos finais de semana íamos todos a praia no posto 6, fazíamos um buraco na areia e ali 
estendíamos as nossas  toalhas.
Entre um mergulho e outro a gente se entregava ao sol do meio dia, em sublime sacrifício ao astro rei. Meu Deus! 
Não sei se a temperatura da terra se elevou ou se não nos preocupávamos com quase nada, mas sei que de noite estávamos vermelhos feito camarão e durante a semana descascávamos feito cobra. Era tudo simplesmente perfeito. O mundo nos pertencia...
O tempo passou levando muito da nossa beleza; sim, porque éramos todos lindos!
Hoje, quem for aos nossos encontros anuais de confraternização  e observar como dançamos não terão dúvidas de que um dia, nós incendiamos Copacabana!
Sandra May - 04/2016


FELICIDADE

A mesa da cozinha era o centro das atenções, lugar da mais alta nobreza da casa. Um lar?
O fogão à lenha aquecia os invernos frios e os corações, e, na cozinha todos se reuniam; mais pelo calor do que por qualquer outra coisa...
Haviam mãos quase sagradas, rudes e amorosas. Mãos que religiosamente aos sábados, e, por mais de cinquenta anos amassaram o pão nosso de cada dia. Dois pães de forma, grandes! Alimentariam quatro crianças, duas mulheres adultas e uma velha senhora por sete dias, mais a quem chegasse pra visita. "Vamo entrando?"
A vida em si era um ritual. A confecção do pão caseiro, porém, o ponto alto da cerimônia.
Farinha, água  e fermento eram misturados e amassados pelas mãos cansadas, de dedos tortos pelo muito que trabalhavam.
Salpica farinha e amassa, amassa e sova, e salpica mais farinha e sova mais um pouco, até que como em passe de mágica a massa abre umas fendas que se expandem vagarosamente. Pareciam pétalas se abrindo em flor! Tinha chegado ao ponto certo, o que  era segredo guardado a sete chaves.
A mulher então dava sossego a massa. Gravava com as mãos sobre ela uma cruz como que abençoando e deixava descansar por um bom tempo. Jamais respondeu ao " por que tem que fazer a cruz ?", desconversava...
Um gato que raramente dava as caras surgia do nada,  era quando as crianças se aproveitavam pra puxar-lhe o rabo. O gato disparava em  fuga fazendo jus ao nome de batismo: "Foguete".
As mãos quase sagradas matavam galinha pro almoço dominical e entre as crianças saía briga quando as galinhas cacarejavam, sinal que haviam posto ovos. É a minha vez, é a minha vez!!!
As mãos da mulher,  aquelas  mãos quase sagradas, alimentavam todos os animais do terreiro; os coelhos, os porcos, a cabra e o cachorro, único que escapava do sacrifício, em ocasiões especias; Natal, Páscoa e  domingos, as ocasiões propícias à  degola.
Às vezes, raramente, Maria ia a missa. Tinha muito o que cuidar!
As mãos dela  trabalhavam incansavelmente e como autômatas, uma vez ou outra levantavam o avental que ela usava sempre, sempre, sempre, e, com a ponta enxugava uma lágrima no canto de um olho, depois do outro. Seriam lágrimas, seria a fumaça do fogão à lenha ou seria um cisco?  Não soluçava a mulher...
Quando Maria pegava um recém nascido ao colo, sorria. Só então, ela que nunca tivera filhos, sorria. Naqueles momentos  deixava transparecer um brilho novo no olhar. Felicidade? Ninguém soube dizer.
Morreu Maria, o fogão é a gás e o pão, de padaria.
Sandra May - 04/2016

PONTO DE CRUZ

A rua não era calçada e nem era necessário que fosse, não  passavam carros com frequência, e, nem havia linha de ônibus no bairro. Carros mesmo, somente no final do ano quando chegavam "os  veranistas," e, mesmo assim eram raros.
Seu Joaquim, uma vez a cada quinze dias subia a rua de barro montado no seu cavalinho malhado, que tinha por nome, "trovoada."  Vinha fazer serviços para a avó de Letícia, e, chegava à casa pela rampa por onde em tempos próximos passados desciam as charretes do avô da menina, já então falecido.
No mais, era  quase sempre silêncio na rua mal iluminada à noite, e, vez em quando o apito do guarda noturno soava...
Às 7:00 horas a fábrica apitava, às 14:00 também, tornava a apitar às 18:00,  e, finalmente às 22:00 horas.
Letícia sentia medo sempre, muito medo, mas não sabia exatamente de que ou de quem. Mal dormia, mal acordava, mal comia! Sentia-se em um outro universo e vivia à deriva.
Marmita ela nunca tinha visto... e quando Seu Joaquim entregava aquele embrulho feito com pano de prato xadrez pra "vó,"  Letícia acompanhava com muita  curiosidade o processo de desembrulhar, esquentar a marmita e, finalmente, Seu Joaquim sentar no chão pra comer; não sem antes tirar o chapéu.
A avó quando via a menina parada dizia: " O que que tá espiando?" Era isso! Letícia não olhava pra nada, mas espiava tudo...queria saber de tudo, de todas as coisas. Procurava algum sentido pra vida!
Letícia tinha sempre os joelhos ralados de tanto que caía, mas sempre se levantava. Já tinha visto seus coelhinhos brancos, de olhos vermelhos, crescerem para depois serem erguidos pelas orelhas e abatidos por duas ou três pauladas, tinha visto também a última vaca  ir embora...não sabia pra onde mas teve um pressentimento que boa coisa não podia ser... Moeda, a última vaca! Ralou de novo os joelhos e muitas outras vezes, sucessivamente.
Os dias se arrastavam entre dias frios e chuva fina, era inverno. Dias quentes e chuvas grossas, trovejava, era verão!
Uma jabuticabeira carregadinha de frutas cor de berinjela ...a menina subia na árvore e passava horas comendo jabuticabas e falando com os passarinhos que com ela compartilhavam do banquete dos deuses. Estavam  acima de tudo, acima de qualquer maldade!
Verão, raios no céu, sol brilhando, dias amenos, noites sem cobertores, limonada, chuvarada e "os veranistas" subindo...
Quem pode faz o preço, quem precisa concorda!
Letícia chorou por muito tempo, teve crises nervosas e sentiu raiva das pessoas, odiou a vida, não perdoou nada e ninguém, nem a si mesma pela sua impotência diante do inevitável. Quase perdeu a fé em Deus, o que mais tarde acabou por acontecer.
Precisava tomar uma decisão, e, tomou a única possível: entrou na cratera oca e se deixou ficar por tanto tempo que criou raízes, e cresceu frondosa, e acolheu os passarinhos que nela fizeram seus ninhos. Tanta convivência assim com a natureza, acabou que fez as pazes com Deus
Muito tempo se passou, mas sabe-se que Dona Letícia ainda abriga  ninhos e continua falando com os passarinhos e eles cantam pra ela e ela sorri pra eles.
Dizem, e, concordo com o que dizem, e, da maneira como dizem, que: "Dona Letícia tem problemas de cabeça rs rs"!
Sandra May - 04/2016

A DOIS

Ele chegou em casa ainda era dia claro. Entrou, fechou a porta e não abriu as janelas. Fechou as cortinas e acendeu um abajur.
Estava cansado, exausto, vazio! Olhou o quarto desarrumado havia dias, desanimou ainda mais. Quis morrer, desistir. Lembrou da erva pura guardada no armário, foi até lá, desembrulhou e fez um bom cigarro.
Despiu-se inteiramente, sentou-se nu diante do grande espelho e acendeu o cigarro. O quarto  rodou, levitou, virou de cabeça pra baixo e pernas pro ar.
Do armário saíram roupas e mais roupas que desfilavam diante do espelho, atrás do homem que impávido, olhos fixos em si mesmo, pensava nela!
Sentiu um perfume, estremeceu inteiro... era ela, era dela, pra ela, por ela.
Mais um trago no cigarro e ela abraçou-o pelas costas, passou os dedos entre seus cabelos, beijou seus ombros e sussurrou alguma coisa suavemente em seus ouvidos, depois partiu sem que ele sequer percebesse o instante. Um frio percorreu a  coluna de cima abaixo, os  músculos do ventre se contraíram e ele e quase desmaiou; foram espasmos...
Levantou-se devagar e observou seu corpo no espelho a meia luz do abajur. Estava grávido, inteiramente grávido, absolutamente pleno de vida! Tinha sido ela, tinha sido dela, engravidara dela. Amava e amava tanto, e amava mais ainda...amava-se e amava a ela e respirava por si e respirava por ela.
Não percebeu que a noite já se fazia alta quando deu por si, vestido e animadamente conversando com as flores que dividiam com ele o apartamento. Foi uma longa conversa que só terminou quando ouviu o toque da campainha. Sentiu o coração disparar e temeu a morte que havia desejado.
Seria ela? Tinha certeza, tanta certeza que não olhou pelo visor, abriu a porta sorrindo.
Passados uns segundos ele fechou a porta e deu duas voltas na chave. As outras chaves ficaram oscilando como um pêndulo até que depois de algum tempo voltaram ao estado de repouso.
A empregada da casa tinha visto tudo, mas discretamente se recolheu sem dizer palavra.
Sandra May - 04/2016



SEM PRESSA

"Andei tão apressada que perdi o melhor da paisagem. 
Hoje, tendo atravessado a maior parte do meu caminho, reduzi a marcha e me detenho aqui e ali , sento muitas vezes no meio do dia à sombra do grande ipê cor-de-rosa e me coloco simplesmente no papel que me cabe; Ser feliz!"
Sandra May-04/2016
VIVER É FODA

A mulher acordou mal amada como acordava todos os dias, colocou sua máscara de felicidade, um sorriso plástico, congelado, e passou o dia sorridente, automaticamente sorridente. Por trás de si o vazio. Não chorava, mantinha-se firme, representava bem o papel que lhe cabia, grande atriz! Se chorou por alguma das tantas humilhações a que se permitia não houve quem testemunhasse; ninguém sabe ninguém viu.
Preparou-se pra mais um dia vago e abriu as janelas, quem sabe a liberdade não viria num cavalo alado?
Pégaso passou sorridente oferecendo montaria, ela fingiu não ver, como era de costume e profissão. De tão conformada, Rosa não permitiu que fossem abertas as janelas de sua alma. Optara pela clausura emocional...Viver é foda, morrer é difícil, te ter é uma necessidade; cantou o poeta!
A vida de Rosa, aquela vida  árida talvez desse um filme; rude como o agreste, de solo pedregoso e sempre sujeito à seca, como são secas essas minhas palavras!
E hoje em dia, como é que se diz "eu te amo"?
Sandra May - 04/2016

Sorry

Sinto muito ter que admitir, meu querido! Acabo de descobrir que somos feitos do mesmo barro, no entanto, nós não somos como flor e jarro... aceita que dói menos. Sejamos amigos, ecúmenos.
Sandra May - 10/ 2016










10 comentários

  1. Apenas LINDO, Sandra! Já no 1o e você ARRASOU *-*
    Animei de propor mais desafios só pra você escrever mais =D
    Bjoo!

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    Respostas
    1. Oi Salieri,
      Vindo de você um comentário como esse...nossa! Obrigada pelo incentivo.Bjs!

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  2. Pode-se dizer, Sandra, sem medo de errar: Este texto é uma pérola literária"! Parabéns!

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  3. Que lindo Sandra! Veja a diferença dos contos escritos por poetisas!!! "Morreu Maria, o fogão é a gás e o pão, de padaria." Que final poético! Sem palavras... simplesmente amei. bj

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  4. Que texto maravilhoso, Sandra *-*
    Dlç entrar em um blog e dar de cara com texto simples, mas que nos encantam. :*
    entrenospicio.blogspot.com.br

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    Respostas
    1. Dê,seja bem vinda e obrigada pelo comentário tão carinhoso.
      Bjs!

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  5. Lindos textos Sandra. Parabens! Gostamos de escrever não é? Tambem escrevo coisas.
    Quando puder visite meu outro blog
    http://www.blogdachicachata.com.br
    Grande abraço

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    Respostas
    1. Olá, Maria de Lourdes! Acabei de chegar do seu "Chica Chata" e amei conhecer você e seus escritos. voltarei lá, com certeza...
      Bjs

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